:: Celtic Blood - Historia e Cultura Celta ::

Celta - Significa "Povo do Segredo" e vem do grego "Keltoi". Hail to Boudicca!
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:: quarta-feira, março 27, 2002 ::

As coisas acontecem de formas estranhas em Paris.

Estava hoje no metro vindo para ca, pensando sobre o que escrever. O vagao estava cheio, mas nao daquela forma que impossibilita o movimento das pessoas, estava no limite do aceitavel. Na estacao George V, na Champs Elisees, a porta se abre e dois artistas entram para tocar e tentar ganhar alguns euros com isso, o que é bem normal por aqui. Um violinista e em contra-baixista começaram a tocar. Durante tres estacoes os musicos tocaram musicas italianas e, com toda a educacao pediram trocados para os passageiros. Quando estenderam o saco de doacoes para uma garota negra sentada ao meu lado ela se levantou e pensei que fosse haver algum tipo de briga. Os tres, a garota e os dois musicos pareciam estar discutindo em italiano. Pelo que pude entender ela reclamava que estavam tocando alguma musica de forma muito lenta e tentava explicar seu ponto de vista batendo palmas para mostrar o ritmo correto. Ainda pelo que pude entender ela queria que tocassem novamente, mas dessa vez da maneira certa. Eles toparam e comecaram a tocar sob o ritmo das palmas da negra. Em certo momento a voz da garota se juntou aos instrumentos. O vagao, antes com o som de dezenas de vozes calou e permaneceu quieto enquanto a garota cantava. Mesmo os instrumentistas se assustaram mas felizmente nao perderam o ritmo.
Era uma musica linda, uma especie de aria. A voz fluia e agradava, os timbres mesclados dos instrumentos levavam a dor para longe, o prazer e o amor foram cantados, assim como a dor da perda. A voz vinha em ondas, hora forte como uma tempestade hora tao suave quanto ondas em mar calmo. Mesmo a crianca ficou quieta, ouvindo. As pessoas, por um instante, deixaram de ter diferencas. Todos ouviam e sonhavam. E, quando o som por fim morreu, houve silencio, ninguem se atrevia a acabar com o momento. Todos do vagao, mesmo os mais afastados, olhavam o trio. O unico som era o barulho do trem, metal rangendo e se contorcendo. O metro parou e as portas se abriram, a garota se preparou para descer. Antes que ela saisse uma salva de palmas saudou sua apresentacao inesperada e maravilhosa.

It's a kind of magic.

Agradeco a oportunidade de ter visto isso.

Para Annix:
Se nao vejo a mulher que mais desejo, nada que veja vale o que nao vejo.
:: Cato 11:27 AM [+] ::
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:: segunda-feira, março 25, 2002 ::
Bom, hoje foi meu primeiro grande mico em Paris.
Eu tinha que cortar o cabelo. Tava assustador. Minha cabeca parecia um microfone.
Entao, fui procurar um cabeleireiro ou barbeiro ou seja la o que corte cabelo por aqui.
E, como escrevi em um post passado, moro no dixieme (10). Habito no meio de um bairro tipicamente Indiano.
Como estou em processo de corte de custos, para que meu dinheiro nao acabe eu virei um muquirana profissional.
Sai pelo bairro procurando o preco mais baixo para corte de cabelo. Nos saloes mais decentes o corte custa , em media 15 euros. O que e caro demais pra mim. Desconsolado, ja aceitando a ideia de pagar esse valor, eis que de repente encontro um lugarzinho colorido onde vi pessoas fazendo a barba e cortando o cabelo. Tava tudo escrito em indiano, mas la fui eu, na cara e na coragem. Entrei, perguntei com meu frances basico quanto custava o corte, "Oito euros" disse um simpatico indiano com uma tesoura em cima do ouvido. Pensei, " vai ser aqui mesmo". Esperei um pouco, e, nesse tempo, aproveitei para notar os detalhes culturais desse novo lugar. O cabeleireiro indiano nao so corta o cabelo como, enquanto exerce sua profissao, canta e da o ritmo batendo os instrumentos (tesoura e navalha). Uma festa. Novidade total para mim, brasileiro besta como sou.
Entao, enfim chegou minha vez. O artista limpou a cadeira com uma habilidade sem par, estalou o avental e com movimentos relampagos me vi usndo o avental branco. Ate ai estava tudo muito bem. Eu estava fascinado com os movimentos e o ritmo quase hipnotico das tesouras, pentes e navalhas. O indiano entao, virou-se para mim e falou algo. Nao entendi nenhuma palavra do que ele disse. Ja nao entendo bem frances, imaginem ainda com sotaque carregado como o dele. Geralmente, uso o cabelo curto, mas nao demais. Fica mais pratico para o dia-a-dia. Continuando, o indiano ficou me olhando enquanto eu tentava decifrar o que ele estava me dizendo. Todas as pessoas do salao estavam olhando para mim nesse momento. Pensei, " deve ser o tamanho" entao disse "Court" que, se nao perceberam significa CURTO. Ok, ele comecou o trabalho. Laminas, tesouras e pentes voaram pela minha cabeca, nao acreditei na velocidade com que o homem de pele escura trabalhava. No final, depois de cinco minutos, estava pronto.
ESTOU QUASE CARECA.
E a primeira vez em toda minha vida que sinto frio na cabeca.
Valeu pela experiencia.
Era o lugar mais barato.
Ganesha e bacana.
Nunca mais corto o cabelo la.

:: Cato 11:45 AM [+] ::
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:: domingo, março 24, 2002 ::
Eu gosto muito de visitar igrejas aqui em Paris. E na paroquia de St Severin, mais precisamente na igreja de St Nicolas vi uma imagem que me impressionou muito. Um quadro bem pintado, acima do batente de uma grande porta. Imagem de um senhor forte, sisudo e com longas barbas brancas, sentado em uma grande cadeira de madeira com espaldar alto trabalhado em motivos rebuscados, esse cavalheiro, vestido em roupas simples, com uma especie de camisao medieval, se apoia com o braco direito em um grande livro enquanto, com o outro braco, segura uma grande espada de duas maos com a lamina virada para baixo. Fiquei genuinamente emocionado. A uniao da ideia de sabedoria e força me impressionou. Sempre admirei os templarios, celtas e sufis por esse motivo, homens estudados e sabios que defendem seus pensamentos com palavras e armas. Acredito na ideia de que se alguem quer paz deve estar preparado para a guerra.


:: Cato 2:51 PM [+] ::
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:: segunda-feira, março 18, 2002 ::
Dia de Sao Patricio (Saint Patrick' s day).
Nesse ultimo final de semana foi comemorado o dia de Saint Patrick, padroeiro da Irlanda. Canto, danca e alegria preencheram as cidades do mundo. Tudo regado a muita Guinness (Cerveja preta forte, tipicamente Irlandesa). Em todos os Pubs a cor verde tradicional foi usada com orgulho na celebracao do dia desse santo.

Mas quem foi Saint Patrick?
Vamos contextualizar primeiramente.
Por volta 415 d.c., a igreja catolica romana enviou missionarios para converter as tribos celtas da Irlanda. Em 431 os papas enviaram um grande sabio cristao chamado Palladius para ajudar na continuacao do ensinamento. Palladius organizou, teorizou e escreveu varios tratados sobre a catequizacao do povo celta. Tambem construiu dezenas de igrejas, algumas existentes ate hoje.
A missao de Palladius era, basicamente, conhecer a cultura druidica e analisar o resultado da mescla entre o catolicismo e o paganismo celta. Ele notou que esse povo, com pensamento livre por natureza, nao aceitava bem os dogmas catolicos. Sua missao entao havia fracassado em parte, a analise foi feita mas os ensinamentos nao foram passados de forma eficaz.
A conversao da Irlanda teve que esperar ate a chegada de Sao Patricio.
Patricio era um romano-britanico que havia sido vendido como escravo na Irlanda. Escapou para a Galia (atual Franca), cruzou heroicamente o canal para a Inglaterra e voltou para casa. Mais tarde, juntou-se as fileiras da igreja catolica e, quando subiu na hierarquia da igreja, seu conhecimento da Irlanda e da lingua converteran-no na escolha obvia para um esforco missionario que seguisse ao de Palladius.
Patricio foi bem recebido e a cristandade celta nasceu, provavelmente, do encontro entre Patricio e o rei celta Logaire da cidade de Tara. Os irlandeses rsponderam ao impulso do cristianismo como nenhum outro povo havia feito antes. Eles reverenciavam a religiao mas amavam a vida. Tambem respeitavam o conhecimento de seus antepassados. Os irlandeses aceitaram o cristianismo, mas em seus proprios termos - que era o de negar qualquer conflito entre o amor ao conhecimento e o amor a Deus.
Oficialmente a cristandade celta nao tinha existencia independente, mas seu espirito e seus metodos eram completamente diferentes dos de Roma. Os celtas nao viam razao para rejeitar as herancas do passado. A igreja irlandesa preservou a literatura paga, os celtas liam poesias pagas ao mesmo tempo que os Evangelhos cristaos.
Os irlandeses foram uma dificil prova para Patricio.
Dessa mescla nasceu duas das grandes obras da humanidade, o livro de Kells e o evangelho de Lindisfarne, sobre os quais falarei em outro texto, pois exigem reverencia e espaco proprios.

"Temos conhecimento para vender."
Anunciava o monge-druida de Saint Gall.
Ao ser interpelado sobre o motivo da "venda" das palavras sagradas respondeu:
"Se os homens conseguem algo em troca de nada nao darao valor."

Cato

:: Cato 11:16 AM [+] ::
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:: sábado, março 16, 2002 ::
Saudades de meu amor, Annix.
Saudade de meus gatos.
Saudade de virado a paulista.
Saudade de Bis.

:: Cato 2:11 PM [+] ::
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Paris e' rasgada por varias linhas de metro, se alguem cair num bueiro, provavelmente caira em uma linha de metro. Tenho medo que algum dia o chao nao aguente e a cidade colapse. Pra todo lugar que se queira ir, da pra ir de metro. Acho que mesmo para comprar pao o parisiense deve tomar o metro. E por falar em pao, sabem aquela imagem do frances carregando a baguette embaixo do braco? E verdadeira, e nao e bem no braco, o pao fica esmagado na axila. Imaginem o calor dum metro lotado, a axila suando e o pao absorvendo. Deve ser por esse motivo que eu so vejo baguettes partidas. Sei la, deve ser bom, mais salgado pelo menos.

Q - Paris e um lugar caro?
R - Depende. Como havia escrito, agora com o Euro todo mundo subiu um pouco os precos. Tudo foi arredondado para cima, o que foi pessimo, mesmo para os franceses. O segredo eh comprar comida em supermercados. Da pra se viver muito bem por aqui gastando cinco euros (12 reais) por dia. Eu faco isso.

Vai ficar aqui por um mes? Otimo, aproveite bem. E compre uma Carte Orange, passe de metro valido por um mes, com embarques e desembarques diarios ilimitados. Quer acessar internet? Bacana, mas compre um cartao de acesso mensal ilimitado.
Com esses pequenos truques qualquer um pode visitar Paris sem gastar muito.

Visitei hoje o Musee de Larmee (Museu do exercito), na estacao invalides. Tudo sobre humanos matando humanos, desde a idade da pedra ate a segunda guerra. Fabuloso acervo de equipamento medieval. Todos os tipo de armaduras e armas estao a disposicao do publico, e nao so artefatos europeus como tambem orientais de varios tipos e eras. O melhor museu desse genero que ja vi, ate melhor que London Tower.
Nao acaba por ai, pelo preco de um museu vc pode visitar dois. De brinde levei ainda a tumba de Napoleao, o baixinho mais invocado da nossa historia.
Tumba de Napoleao, grande atracao turistica, muita gente, milhares de japoneses.
E por falar em japoneses...
Eles vem em ondas de mais de 30 pessoas, todos com suas maquinas fotograficas de ultima geracao. Sorridentes e falantes, quando passam por um ponto turistico viram predadores com armas luminosas. Tiram foto de tudo, ate de cachorro defecando.
No chateau de Napoleao, nem consegui ver direito a tumba do tampinha, nao dava, muitos flashes sendo refletidos nas estatuas. Estou ate agora vendo pontos brancos flutuando a minha frente.
Observacao psicologica: Napoleao foi um baixinho que gostava de tudo grande, sera que fora a estatura diminuta ele queria compensar mais alguma coisa?
Observacao aleatoria: Porque toda vez que olho pra estatua de napoleao vestido de imperador romano me vem a mente a imagem de uma colecao de Playmobil nos tempos de Roma?
Paris e bacana.

Cultura celta.

Tres classes profissionais guiavam a cultura celta. Bardos, Guerreiros e Druidas. Os bardos ou poetas cantavam ou declamavam elaboradas cancoes-conto que continham toda a historia do povo celta. Os guerreiros, protetores dos quatro elementos, cuidavam da seguranca da deusa e de seus seguidores. Os druidas, ordem religiosa composta so por homens, cultivava o conhecimento mistico e serviam como juizes e conselheiros aos reis celtas. Para fazer parte da ordem sagrada dos druidas, apos a selecao e a dificil iniciacao, o pretendente deveria passar por vinte anos de periodo de treinamento durante os quais os varios mestres "cantavam" o conhecimento para o pupilo. Essas licoes cantadas eram repetidas em coro e colocadas em pratica na frente dos grandes mestres para avaliacao.
Essas cerimonias, como quase todas feitas pelos druidas, eram realizadas na floresta, em meio a arvores centenarias e apenas em certas datas do calendario.
O apice da transe era alcancado quando todas as vozes, em unissono, invocavam o deus da floresta, o deus dos chifres. Carne e vinho eram oferecidos, e o canto era perfeito. Nao havia vozes fora da tonalidade certa, nao poderiam haver.
A presenca se fazia e os testes iniciavam. Muitos dos pupilos nao retornavam da floresta.

O conhecimento Celta, como todo o resto de sua cultura era musical. Por esse motivo, quando alguem disser "Eu faco Wicca", desconfie. se a voz dessa pessoa nao for musical, agradavel e cristalina ela nem deve saber direito do que esta falando.
:: Cato 2:03 PM [+] ::
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:: quarta-feira, março 13, 2002 ::
Hoje em Paris o dia esta lindo, faz calor e eu aqui, vestido todo em preto, com uma blusa grossa e jaqueta de couro. MICO.
Visitei as catacumbas da Sacre Coeur, interessante, um monte de padres enterrados com toda a pompa catolica.
Subi 2000 degraus para ter uma das vistas mais impressionantes de Paris. A vista do topo da torre da igreja Sacre Coeur.
Suei, quase morri de ataque cardiaco, mas quando cheguei ao topo vi que tudo valeu a pena.
Pude ver TODA a area de Montmartre dali, tirei otimas fotos que, daqui a algum tempo, estarao disponiveis em meu album de fotos virtual. vide Link.
:: Cato 11:23 AM [+] ::
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:: sábado, março 09, 2002 ::
Essa porcaria de cartao dura so 21 minutos.
E custa dois euros, que roubo.
:: Cato 2:28 PM [+] ::
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ESTOU EM PARIS. Estou na Easy Everything, a maior rede de cybercafes do mundo. Teclado estranho. Impossivel de digitar. Q no lugar do A, Z no lugar do W. Ah, e nao da pra acentuar.
O cafe aqui tem dois precos, ambos caros. No balcao custa cerca de 5 reais, sentado numa mesinha custa uns dez. E ainda por cima e o pior cafe que ja tomei em minha vida, tem gosto de agua suja.
Hoje eu e Annix fomos ao museu de Cluny onde assistimos um show do grupo de musica medieval Ultreia. Otima musica, grandes instrumentistas e otimo cantor. Musica do sex XII, epoca de Joana Darc.
Segunda feira comecarei minhas aulas, espero que tudo de certo. Nao pudemos trazer nossos gatos, mesmo sedados, eles surtaram em pleno transporte para o aeroporto. Imaginem o que fariam se escapassem ou arrebentassem a caixa de transporte em pleno voo.
Nosso apartamento e bom, no meio de Banglatown, quer dizer, num bairro predominantemente indiano. Acordo e vou dormir em meio ao cheiro de Curry. Mas o bairro e lindo, e o ap totalmente mobiliado, e, principalmente, COM UM BOM AQUECIMENTO. O frio aqui e de matar, literalmente.
Aqui em Paris com a chegada do Euro tudo ficou mais caro, os comerciantes simplesmente arredondaram todos os precos pra cima.
:: Cato 2:27 PM [+] ::
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:: domingo, março 03, 2002 ::
Domingo, dia chuvoso e quente, felinos chateados, esparramados pelo chão, sem vontade nenhuma de brincar, pena. Nada de interessante na televisão, nem mesmo no Discovery Channel. Nada para fazer, rien de rien. Faltando só três dias para minha partida rumo à Paris eu ainda nem comecei a arrumar as malas. Me levanto, começo uma não muito empolgante tentativa de juntar alguns troços na mala. A França é um país de clima frio, devo levar então muitas roupas quentes. Antes de iniciar o processo de separação das roupas, começo a ouvir o cd "Almanach" do grupo francês Malicorne. O som preenche o ambiente e entra em meus ouvidos, nesse momento algo acontece. O canto dos Druídas se torna minha realidade e eu entendo o que me guia. A alma celta retorna e me inspira, lembro-me das catacumbas galo-romanas que visitei em Paris, revejo as esculturas, armaduras e armas celtas do British Museum, e principalmente, lembro-me de uma história…

Ano 55 a.c., A tribo dos Parisii leva a sua vida normalmente, é época de prece para Lugdanach, o supremo deus. Os preparativos já estão avançados para a semana das festas. Todos, independente da classe social estão contribuindo para a comemoração. Os últimos dias foram claros e límpidos, as colheitas e a pesca foram fartas e a tribo está feliz. Como seus antepassados já fazem há mais de mil anos, o druida Lemiriagh se retira para a caverna sagrada onde passará os próximos dias comungando com os deuses. Nesse lugar abençoado, cercado de estátuas e símbolos religiosos desenhados nas paredes, o druida encontra o material que necessitará para suas previsões. Os ritos cerimoniais são seguidos, a promessa é proclamada e aceita, a junção está completa. Agora os deuses mostrarão seus desígnios. O mel não escorre e o bezerro nasce morto, é um péssimo sinal. Apelando aos antepassados Lemiriagh recita palavras perdidas e toma a infusão secreta que o leva a entrar em transe profundo. O druida de origem escocesa vê surgir do meio de uma neblina muito fechada um exército de monstros metálicos cuspindo fogo e imensas pedras.
Na aldeia, um grupo de caçadores volta da floresta com más notícias. Um grupamento romano totalmente armado vem em direção à tribo. Esse homens portam grandes lanças, escudos quadrados enormes e espadas de porte médio na lateral direita do corpo, marcham de forma cadenciada e com tão fortes passadas que levantam nuvens negras que cercam as florestas, como se um vasto incêndio infernal consumisse as terras sagradas. Mas, de acordo com o caçador mais experiente, estão a muitos dias de distância e não devem saber a localização exata da tribo.

De cima de seu cavalo negro, o oficial romano Labienus Sueridius Maximus dá a ordem de acampamento, os soldados soltam por terra suas mochilas e iniciam a construção do forte temporário. Labienus está satisfeito, em dois meses de marcha não houve nenhum ataque dos bárbaros celtas. A glória de Roma prevalecerá, o Grito "Roma Victor" será brevemente ouvido também nessas terras. O combate será breve, esses "gauleses nojentos" conhecerão o poder do exército romano.

De volta à aldeia, Lemiriagh o druida conta as más novas a Camulogenes, o chefe, que já sabendo dos invasores ordenara que os guerreiros preparassem a paliçada em volta da aldeia, "Se os malditos romanos nos querem, que nos venham pegar" disse o poderoso chefe. "Nossos guerreiros são fortes, ágeis e conhecedores do terreno, nossas mulheres lutarão também. Mesmo nossos filhos, até os mais novos, nos serão úteis no campo de honra, defenderemos nossa terra às custas de sangue e deixaremos os deuses orgulhosos com nossos feitos de guerra" concluiu Lemiriagh.
Nos dois dias seguintes a esse discurso, os guerreiros celtas se armaram, rezaram e se prepararam para o conflito, no final do segundo dia o druída comunicou que seria a noite de melhores auspícios para a deusa. Foi então iniciada a cerimonia onde o caldeirão sagrado foi utilizado e carne de quatro bois e três carneiros foi cozida. O agradecimento à terra, a água, ao ar e ao fogo foi feito e os deuses estavam satisfeitos. Não houve necessidade de pedidos de força às divindades, pois o avatar da deusa já estava presente e armado.

(Pausa para o café. Odeio lavar louça.
Café horrível, nunca acerto a medida de pó.
Gatos comendo, mal humorados. Ainda chove. Nenhuma vontade de arrumar a mala.)

Do alto de uma colina o comandante Labienus junto com seus dois centuriões olhava com orgulho a marcha de suas duas coortes, o movimento dos mil homens era correto, os estandartes carregados pelos decuriões brilhavam e anunciavam a chegada de Roma. Tudo estava perfeito.
Perfeito também foi o movimento dos quatrocentos guerreiros celtas. Da parte mais fechada da floresta a frente dos romanos ouviu-se os sons sibilantes das setas gaulesas seguindo-se do barulho de impacto do metal contra metal. Algumas dezenas de soldados romanos cairam, mas a máquina romana reagiu rápido, muito rápido. Os soldados da frente escostaram os escudos lado-a-lado formando uma parede a qual as flechas gaulesas não mais conseguiram penetrar. De trás dessa formação o som de vibração de cordas foi ouvido e uma chuva de setas voou em direção à floresta, graças aos antigos nem uma dezena de guerreiros foi acertado, houve apenas seis baixas.
Cavalgando rapidamente para juntar-se à tropa, Labienus e seus oficiais gritavam ordens que, quando entendidas foram obedecidas à risca, homens juntaram-se e levantaram seus escudos, a formação tartaruga estava pronta. Os gauleses viram o meio da parede metálica formada pelos escudos romanos se abrindo, revelando o que parecia ser um animal vivo, um ser com carapaça e muitos pés. Era a formação romana "testudo", quarenta homens em fila reta perfeita em cada lateral, com seus escudos abaixados e o restante, no meio, unindo os escudos acima da cabeça. Camulogenes surpreso, demorou alguns segundos para tomar a decisão, ele era o chefe, veterano de muitos combates, mas não conhecia esse oponente. Os guerreiros celtas, impacientes, esperavam apenas pelo grito do chefe. Assim que Camulógenes notou que aquela coisa não era um ser vivo, mas sim um grupo de homens avançando, protegidos pelos escudos, gritou. E o grito foi tão alto e selvagem que mesmo os romanos silenciaram, surpresos. As árvores pareceram ganhar vida, os celtas atacavam, uma centena de fortes guerreiros usando peles de lobo avançou, rompendo a formação romana. Espadas vibraram, o som do metal contra metal só era superado pelos gritos dos celtas. Labienus, viu a formação romana ser destruída e seus homens morrerem. O pânico tomou conta do resto dos romanos, que não acreditavam no que viam, imensos lobos avançando sobre os companheiros, urrando e devastando o grupo avançado de ataque.
O comandante romano não teve outra alternativa senão ordenar às suas tropas a retirada. Camulogenes, vendo a superioridade numérica romana não os perseguiu, sabia que deveria lutar na floresta, onde a natureza ajudaria seus bravos.
No local da luta o solo encontrava-se rubro, a terra, empapada pelo líquido escarlate formava lama a qual exalava forte cheiro de ferro e de sangue.
Essa vitória foi comemorada pelos celtas, pouco mais que uma dezena de celtas cairam enquanto quase que a totalidade do grupo dos inimigos pereceu.
Labienus, em sua ignorância sobre os celtas, não esperava enfrentar mais que bárbaros, ignorantes e estúpidos, com armas fracas de bronze e desorganizados. Não sabia que esse povo dominava a metalurgia e estudava estratégia de guerra. Não esperava a ferocidade e inteligência de seus ataques, por esse motivo perdeu o combate, o único de sua vida. Logo após esse acontecimento, o comandante romano pediu reforços e juntou ao seu grupo mais duas coortes vindas de Lutécia, cidade ocupada a poucos quilometros de sua atual posição. Várias máquinas de guerra foram construídas, como onagros, tipo de catapulta pesada, com capacidade de lançar pedras de cinquenta quilos a mais de dois quilomêtros e balistas, armas que atiram setas pesadas muito longe e com grande precisão.
Os Parisii lutaram, e por mais dois meses evitaram o avanço dos romanos. Os guerreiros celtas foram perecendo e, a certa altura, as mulheres substituiram aqueles que haviam se juntado à deusa.
Camulogenes o chefe celta e Lemiriagh, o druida rezaram e cantaram, reuniram forças e lutaram, mas o número de romanos parecia cada vez maior, cada dia que os bravos gauleses sobreviviam era motivo de glória à deusa. As máquinas de guerra romanas destruiam tudo ao seu redor ceifando os celtas em grande número.
Não mais podendo ou aguentando lutar em terreno aberto, pois os soldados do império destruiam a floresta para evitar os ataques surpresa dos celtas, Camulogenes juntou os últimos bravos e resistiram o quanto puderam em sua aldeia. Por fim, antes que os romanos eliminassem toda a tribo, o chefe decidiu destruir sua propria aldeia, salgou o chão de forma a que nada mais crescesse ali e ateou fogo às construções. Os romanos conquistaram o solo, mas apenas o solo. O local que os Parisii defenderam as custas de tanto sangue hoje em dia chama-se Île de la Cité, e a região foi chamada de Paris, em homenagem a esses honrados guerreiros. Camulogenes, junto com mais 70 guerreiros pereceu em combate enquanto enfrentava as hordas romanas, possibilitando que o resto de sua tribo, liderada por Lemiriagh fugisse. Os Parisii, agora nômades, continuaram vivos e passaram sua tradição para as gerações futuras com honra e orgulho.

"Você pode me matar, mas não me conquistar."
Camulogenes.


"Eu escuto o lobo, a raposa e a coruja."
Cato

Agora vou arrumar minha mala.


:: Cato 10:54 PM [+] ::
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:: sábado, março 02, 2002 ::
Peço desculpas pela falta de textos nos últimos dias. Estou partindo nessa quarta feira próxima para Paris e ando um pouco ocupado, tenho que juntar coisas, arrumar a casa, providenciar papelada e principalmente cuidar dos meus gatos. Pois é, levarei dois de meus cinco gatos para morar comigo em Paris. Já comprei as caixinhas de transporte e espero que a companhia aérea não crie problemas. Dessa vez levarei, junto com a senhora Cato (Annix, veja seu blog na parte "recomendados"), o Clive Barker, um gato preto grande, lindo e brincalhão e Bonnie Parker, uma linda gatinha branca, meiga e amorosa. temos mais 3 gatos aqui em casa que irão conosco (ou através de amigos) mais tarde. O Kwan Hi Lô, gato branco, metido a persa, brincalhão e um pouco leso da cabeça. O Petrúcio, gato preto, gordo e folgado. E por último, mas mesmo assim não menos importante, Peek-a-Boo, uma maravilhosa gatinha branca, felpuda e pequenininha, totalmente carente e com miadinhos muito significativos. Durante minha estadia em terras francesas tentarei manter o blog atualizado para que acompanhem meu dia-a-dia.

Ok, vamos ao que interessa!

Música Celta!

Em um post mais antigo, escrevi que os Celtas são os melhores e maiores trovadores de toda a história. E ainda hoje essa tradição se perpetua, graças a Lug temos grupos como Deanta, Capercaillie, Slainte e Clannad. Dessa nova geração de músicos celtas destaca-se Manau, um grupo francês, mais precisamente da Bretanha, que encanta os ouvidos com RAP celta (é isso mesmo!), as composições são esmeradas, contando com instrumentos antigos misturados com fortes batidas de hip-hop. As letras, de Martial Tricoche, versam sobre lendas e tradições antigas, desde drúidas e deuses vingativos até combates e romances. Em seu primeiro cd, Panique Celtique, a primeira música "La Tribu de Dana", em minha opinião, é a mais empolgante e surpreendente. Conta a história do combate entre a tribo de Dana e os invasores normandos. Palavras de honra e glória permeiam os versos, pude sentir a adrenalina fluindo em meu corpo quando ouvi pela primeira vez essa canção, lembro-me que tive vontade de desembainhar minha Glaive (espécie de espada celta) e juntar-me à luta. Tricoche, além de letrista, é o vocalista da banda, que, num crescendo emocional e vocal arrebata os ouvidos e o coração com sua descrição cantada do combate.
Descobri essa banda num dia em que Annix mexia na seção de música francesa da FNAC, ela ouviu o cd, arregalou os olhos e me chamou entusiasmada, garantindo que eu gostaria do que iria ouvir. Com muita relutância decidi ouvir as músicas, o primeiro pensamento que me ocorreu foi "Deve ser uma bandinha ridícula, como aquelas de metal celta, tentando adaptar alguma batida funk em textinhos babacas". Antes de colocar o fone de ouvido imaginei uma cena ridícula, mulheres vestidas com roupas celtas dançando funk, fazendo movimentos sexualmente atraentes enquanto brandiam lanças. Me arrependi muito de ter imaginado tudo isso. Manau é muito bom, mantém a chama celta acesa com poderosas batidas e textos maravilhosos. Eu recomendo que comprem o cd, mas preparam-se na FNAC custa cerca de 80 reais (!!!!). Com o tempo (I.E. - quando aprender a fazer isso) disponibilizarei a MP3 da "Tribu de Dana"aqui em meu blog.

"Um deus malvado dorme em suas catacumbas, esperando somente que as pedras sagradas, erigidas e encantadas pelos drúidas da tribo de Dana, sejam vencidas pelo tempo. Um deus com sede de sangue e vingativo espera pelo fluxo das eras. Um deus antigo e poderoso sabe que voltará em seu devido tempo."

Adaptação de "Um mauvais dieu", do cd "Panique Celtique". Letra de Martial Tricoche, traduzido por mim.
:: Cato 2:47 AM [+] ::
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